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  • andreiasofiacosta

Vou ficar sem cabelo


A questão estética é muito importante para a nossa autoestima. Para muitos é completamente imprescindível para conseguirem gostar de si e tem também uma importância social relevante. Todos sabemos que há determinadas profissões onde se espera que os profissionais tenham este ou aquele aspeto.

Não tenho nada contra nem a favor. Mas essa consciência coletiva da aparência é um dos fatores que mais angustia traz ao doente oncológico numa fase inicial. E sem querer ser feminista, às mulheres em particular.

Muitas são as dúvidas quando nos dizem que o cabelo vai cair. Quando? Como? Como será que vou ficar? Compro uma peruca? Uso lenços?

Esta questão aumenta de relevância quando temos crianças em casa que terão de ser confrontadas com esta alteração radical de aparência de um dos seus familiares.

O ficar careca torna o cancro visível para todos. Esta é que é a principal questão. Não dá para esconder e a grande maioria dos doentes não consegue enfrentar isto, nesta fase inicial da doença.

Não há forma certa, nem errada de lidar com a situação. Eu quando soube que iria fazer quimioterapia fui comprar uma peruca o mais parecida possível com o meu cabelo. Levei-a à minha cabeleireira que lhe fez um corte igual ao que eu tinha na altura.

Em seguida cortei o meu cabelo, fiquei com um corte bem cortinho. Arranjei uns quantos lenços e gorros.

Fiz a primeira sessão de quimioterapia e logo a seguir voltei à cabeleireira e cortei o cabelo o mais curto possível, num corte feito à tesoura.

Após a segunda sessão o cabelo começou a cair com muita rapidez, havia cabelos em todo lado. Numa manhã, em casa, uma amiga rapou-me o cabelo com a máquina.

E surpreendentemente, quando me olhei ao espelho gostei do que vi. Acredito que lhe tenha custado mais a ela do que a mim.

Posso-vos dizer que usei a peruca uma única vez. Para mim não era confortável e gostava muito mais de me ver sem nada, com um lenço ou gorro.

Como era inverno, tinha bastante frio na cabeça por isso optei mesmo por andar sempre protegida.

Para as crianças não foi fácil verem esta alteração brutal da aparência, principalmente por aquilo que os colegas poderiam dizer na escola. Todos sabemos que as crianças são seres adoráveis, mas cruéis. A naturalidade com que lidámos com isto em casa fez com que eles até se esquecessem desse pormenor. E ganharam mais um brinquedo: a peruca.

Nesta minha opção o que mais me custou foram os olhares na rua. É incrível como nos tempos de hoje ainda se olha para o doente oncológico com ar de pena. Estas situações eram principalmente quando eu andava com o bebé ao colo. Mas rapidamente aprendi a nem reparar.

Para mim, mais do que perder o cabelo, incomodou-me a perda das sobrancelhas e pestanas. Sem estas ficamos completamente sem expressão, com cara de reptil. Tive sempre o cuidado de aplicar desde o início um serúm para impedir que estas caíssem. Posso dizer que até resultou, nunca fiquei totalmente sem sobrancelhas. O resto, a maquilhagem fez.

Cada um deve encontrar a forma de se manter o mais confortável possível, isso é o mais importante nesta fase. Porque o que no início parecia assustador, rapidamente tomou a proporção devida: é só cabelo e no fim volta a crescer.

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