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LET'S TALK ABOUT CANCRO

Porque conhecimento é poder

Bem-vindo ao Let's talk about cancro, este é o meu projeto onde quero partilhar com vocês a minha história, o caminho que fiz até chegar aqui e conhecimento que fui recolhendo sobre este meu novo lifestyle que o cancro me trouxe.
Mais do que um blog de saúde e bem estar é um espaço de partilha.

 
 
 
 
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  • andreiasofiacosta

Tirar o melhor do pior


Num dia rotineiro como todos os outros dias da semana, ia no carro com os meus 3 filhos e ouviu-se a sirene de uma ambulância. Encostei o carro para a deixar passar.

Um deles questionou porque seria que a ambulância ia com tanta pressa. O outro fala sobre como deve ser horrível ser condutor de ambulância.

Tem que se ter uns nervos de aço, diz um. Pior é ver a pessoa que se quer ajudar morta, diz o outro. É como os médicos e enfermeiros, diz… e fez-se um clique:

“Mãe tu já viste doentes teus morrerem a tua frente?”

“Sim, já vi…”

“E alguns desses doentes tinham cancro?”

“Sim, muitos…..”

E a minha cabeça voou até ao dia em que me morreu nos braços o meu primeiro doente com cancro, a minha mãe. E até ao dia em que me morreu nos braços o último doente com cancro, na semana em que deixei de exercer enfermagem, o meu pai.

Eles não imaginam, mas esta conversa circunstancial de uma pequena viagem de carro, levou-me até dois dos momentos mais difíceis da minha vida, mas também dois dos momentos que mais me fizeram crescer, não no imediato mas passados muitos anos.

Já voltei imensas vezes a esses momentos, precisei de os viver e reviver vezes sem conta, para que hoje quando lá regresso sentir paz, sentir que tudo é como tem que ser. Que todos temos o nosso caminho, que a forma como o percorremos é que pode mudar. Afinal estes foram momentos sobre amor e não sobre sentimentos de culpa e ressentimento.

Todos os profissionais de saúde perante um problema grave de saúde de um dos seus, sente que é responsável pelo desfecho do mesmo, como se pudesse ou devesse controlar tudo.

Eu carreguei durante anos, de forma inconsciente essa culpa. Essa culpa passou a fazer parte de mim.

Só perante o meu diagnóstico e a carga associada a este, só perante a probabilidade da morte, é que consegui confrontar-me verdadeiramente com esse sentimento. Se eu não controlei o que aconteceu comigo como o poderia fazer com os outros?? Aí apercebi-me que as nossas feridas podem ficar abertas anos, sem que tenhamos consciência delas. Que por vezes situações que achamos resolvidas pelo tempo deixam marcas na nossa alma.

E só podemos fechá-las definitivamente se nos permitirmos sentir, chorar, ir ao buraco, mexer naquilo que dói. E depois levantar a cabeça, limpar as lagrimas e seguir em frente.

Foi messe momento que deixei de me questionar porquê eu e me questionei de porque não eu e o que aprendi com isto.

Foi aqui que deixei de viver como vítima da minha culpa. Este processo não é fácil, e na maioria das vezes deve ser acompanhado por um profissional. Ninguém tem de fazer este caminho sozinho.

Durante muito tempo resisti a esta ajuda, mas hoje agradeço ao dia em que finalmente acordei e percebi que já não conseguia fazê-lo sozinha.

Tive a certeza que as minhas feridas estavam a fechar no momento em que regressei a esses dias e me senti em paz e grata.

O que aprendi com tudo isto foi muito maior do que a imensidão que perdi. Porque acredito que as situações só nos surgem porque temos capacidade para as viver e sair mais fortes, nem que seja 20 anos depois….

Tudo está onde tem de estar…

E sim filho, vi muitos doentes com cancro morrerem, mas vi ainda mais ficarem bem e serem felizes!

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